Eu já sabia que era assim. Desde que aqui cheguei, lá em 2010, sabia que era assim. Mortos na orla. Crack adoecendo e viciando jovens. Famílias destruídas. Assaltos. Tiroteios. Estupros. Grávidas adolescentes. Mais mortes na esquina, no trânsito, a céu aberto.
O azul piscina do mar da Pajuçara, ou a belezura da praia de Ipioca. Tudo lindo no cartão postal. Tudo bem blue, como nas imagens editadas dos casais perfeitos do facebook.
Os ricos, os donos do comércio, do turismo, e também os turistas, todos parecem desconhecer ou fingem desconhecer esse cenário sangrento, sujo, doentio que se transformou Maceió. Mesmo com o caos instaurado, não há investimentos sociais. Não há policiamento suficiente. Estamos sem proteção de nenhuma natureza. À mercê da sorte.
Enquanto escrevo, a televisão me convida para fazer parte dessa parcela 'iludida'. Ouço propagandas do governo deste Estado, com índices e notícias vazias de significado. O tema violência, junto com educação, são os alvos do discurso politicamente correto dos políticos locais, ávidos por votos no segundo semestre.
No bairro em que resido, onde construí minha rotina em Maceió, aonde tenho vontade de estar e até penso em comprar um imóvel, é neste lugar tranquilo, com uma orla adorável, que as cenas de violência urbana tem se apresentado mais fortemente. Duas mortes, em duas semanas. Claro que a visibilidade nos dois casos tem relação direta com a classe social das vítimas. Um empresário, um médico.
Sabemos que outros tantos morrem pelas ruas. Caminhando por aí, observo a miséria alheia, os moradores de rua consumindo drogas, dormindo em papelões, fétidos, barulhentos ou silenciosos, mas, infelizmente, invisíveis para a maioria de nós.
Esses que não enxergam quase nada, também não percebem a mudança da lua. Nem sabem como valorizar a natureza abençoada nas alagoas. Fato que os mares e coqueiros festejam a chega dos ventos e a temporada da chuva. Coitados, não sabem que aqui somam palcos de dores, de horrores.
E a vida [ou a morte?] segue assim, por essas terras. E claro, estou ciente de que vivo num Estado-photoshop.
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O título é uma ironia, a partir de outra. Uma amiga querida apelidou a ala que moramos de projac, cidade de mentirinha e cenográfica da Globo, digo, da parte 'lindinha' de Maceió.
Foi assim:
A escrita me acalma.
Segunda-feira, Maio 28
Terça-feira, Maio 22
Meu mundo submerso
Quase três meses de natação. Entre braçadas e voltas completas, toda vez que adentro a piscina me comprometo a pensar em nada. Mas desde os tempos em que pratiquei swásthya yôga, quando tive que ler toda a literatura do Mestre De Rose, que meditar tem sido coisa complexa, pra não dizer impossível. Quanto mais me obrigo a pensar em nada, mais penso sobre isso. O que é pensar em nada, mesmo? Não consigo entender essa máxima de que "pensando em nada, você medita, transcende, eleva seu pensamento".
E como não consigo pensar em nada, entre uma subida e outra para respirar, aproveito para filmar partículas da vida alheia, fora ou dentro da piscina. Adoro fazer isso. No avião, no aeroporto, no trânsito, sentada, em pé, numa fila do caixa de supermercado, nadando ou fazendo qualquer coisa que me conceda a liberdade de olhar, olhar, olhar. Isso sim, para mim, é uma viagem transcendental!
Amo observar posturas, trejeitos nos outros. Embora eu curta muito isso, não sou adepta do programa bbb. Nem coloco em maiúsculas para não valorizar. Não sinto a menor graça em acompanhar ninguém trancafiado, em busca de milhões e sexo fácil em edredons. Gosto mesmo é de observar gente simples, cenas simples, como as pessoas se relacionam num espaço que é coletivo.
No horário que nado, sempre até às 9h, tem umas espécimes muito interessantes. São 8 raias. Não seleciono em qual ficar, pois depende muito do dia da semana e de quem chega primeiro. Esse é um esporte que estimula a competição, mesmo. Impressionante como os olhares trocados entre os "praticantes" é de respeito, mas com um tom de "sou mais ágil" ou "nado mais voltas" ou "já sei nadar como uma borboleta".
Tem um senhor que sempre fica na raia número 7. Ninguém ousa chegar nela. Já é território dele. Ele não conversa com ninguém. Tem corpo atlético, usa pés de pato, nada muito, e é [muito] pedante. Faz o tipo "coroa enxuto", sabe? Nem adianta querer conhecê-lo. Ele só se dirige ao professor, obviamente para cobrar por limpeza da piscina ou coisas do tipo. Ele passou duas semanas fora de Maceió. A piscina estava mais leve sem a presença dele. Todos riam e festejavam a liberdade de poder fazer uso da raia 7, sem sobressaltos.
Tem também uma senhora que é muito figura. Durante o treino, faz rodopios e simula nado sincronizado. Ela se diverte na água! Do nada, vejo as pernas dela no ar, imitando as bailarinas das olimpíadas. E quando ela sai da piscina, fico mais impressionada ainda. Ela é sisuda, forte. Não me parece aquela brincalhona de antes. E me lembra uma tia-avó. Não tenho tia-avó, mas ela me lembra uma.
Nesse grupo matinal tem dois nadadores profissionais. Ou que querem ser profissionais. Não sei ao certo. Mas nadam muito mais que eu e meus comparsas. São diferentes em quase tudo. Da forma como mergulham à maneira como saem da piscina. Nadam duas horas por dia. São disciplinados, incansáveis. Certamente correm, fazem musculação, e seguem dieta balanceada. Me inspiro neles. Vez ou outra tento nadar na mesma velocidade e, claro, engulo muita água e fico no meio do caminho tossindo, desesperadamente. Parecem um casal de peixes. São leves, fluidos, esteticamente bonitos. Creio que o rapaz me paquera, mas só de longe. Será o que pensa de mim? Será que me observa ou só me olha? Claro que deve ser fantasia minha. Os óculos de natação nos deixam assim, com a visão meio turva. Avançado como é, creio que ele jamais paqueraria uma iniciante, que sequer sabe nadar de peito ou conhece a técnica da mariposa!
Não poderia deixar de comentar sobre os dois nadadores mirins. O centro da atenção do professor e de pessoas carentes de família, como eu. Literalmente babo por eles. Do maiô à touca de natação, tudo é rosa ou é azul, ou da barbie ou do homem aranha. Uma delícia de observar! Dá vontade de ficar ali, envolvida pela empolgação de cada um, festejando os pulinhos de alegria para cair logo na água, somados à felicidade de serem observados pelas mães atentas. Penso que toda criança deveria fazer natação, mas só se tivesse na borda, pais amorosos. É uma completude que transcende qualquer lógica. E saio sorridente, a cada nova aula. Me despeço deles assim: com mais um olhar de aprovação, por fazer parte desse universo líquido.
E como não consigo pensar em nada, entre uma subida e outra para respirar, aproveito para filmar partículas da vida alheia, fora ou dentro da piscina. Adoro fazer isso. No avião, no aeroporto, no trânsito, sentada, em pé, numa fila do caixa de supermercado, nadando ou fazendo qualquer coisa que me conceda a liberdade de olhar, olhar, olhar. Isso sim, para mim, é uma viagem transcendental!
Amo observar posturas, trejeitos nos outros. Embora eu curta muito isso, não sou adepta do programa bbb. Nem coloco em maiúsculas para não valorizar. Não sinto a menor graça em acompanhar ninguém trancafiado, em busca de milhões e sexo fácil em edredons. Gosto mesmo é de observar gente simples, cenas simples, como as pessoas se relacionam num espaço que é coletivo.
No horário que nado, sempre até às 9h, tem umas espécimes muito interessantes. São 8 raias. Não seleciono em qual ficar, pois depende muito do dia da semana e de quem chega primeiro. Esse é um esporte que estimula a competição, mesmo. Impressionante como os olhares trocados entre os "praticantes" é de respeito, mas com um tom de "sou mais ágil" ou "nado mais voltas" ou "já sei nadar como uma borboleta".
Tem um senhor que sempre fica na raia número 7. Ninguém ousa chegar nela. Já é território dele. Ele não conversa com ninguém. Tem corpo atlético, usa pés de pato, nada muito, e é [muito] pedante. Faz o tipo "coroa enxuto", sabe? Nem adianta querer conhecê-lo. Ele só se dirige ao professor, obviamente para cobrar por limpeza da piscina ou coisas do tipo. Ele passou duas semanas fora de Maceió. A piscina estava mais leve sem a presença dele. Todos riam e festejavam a liberdade de poder fazer uso da raia 7, sem sobressaltos.
Tem também uma senhora que é muito figura. Durante o treino, faz rodopios e simula nado sincronizado. Ela se diverte na água! Do nada, vejo as pernas dela no ar, imitando as bailarinas das olimpíadas. E quando ela sai da piscina, fico mais impressionada ainda. Ela é sisuda, forte. Não me parece aquela brincalhona de antes. E me lembra uma tia-avó. Não tenho tia-avó, mas ela me lembra uma.
Nesse grupo matinal tem dois nadadores profissionais. Ou que querem ser profissionais. Não sei ao certo. Mas nadam muito mais que eu e meus comparsas. São diferentes em quase tudo. Da forma como mergulham à maneira como saem da piscina. Nadam duas horas por dia. São disciplinados, incansáveis. Certamente correm, fazem musculação, e seguem dieta balanceada. Me inspiro neles. Vez ou outra tento nadar na mesma velocidade e, claro, engulo muita água e fico no meio do caminho tossindo, desesperadamente. Parecem um casal de peixes. São leves, fluidos, esteticamente bonitos. Creio que o rapaz me paquera, mas só de longe. Será o que pensa de mim? Será que me observa ou só me olha? Claro que deve ser fantasia minha. Os óculos de natação nos deixam assim, com a visão meio turva. Avançado como é, creio que ele jamais paqueraria uma iniciante, que sequer sabe nadar de peito ou conhece a técnica da mariposa!
Não poderia deixar de comentar sobre os dois nadadores mirins. O centro da atenção do professor e de pessoas carentes de família, como eu. Literalmente babo por eles. Do maiô à touca de natação, tudo é rosa ou é azul, ou da barbie ou do homem aranha. Uma delícia de observar! Dá vontade de ficar ali, envolvida pela empolgação de cada um, festejando os pulinhos de alegria para cair logo na água, somados à felicidade de serem observados pelas mães atentas. Penso que toda criança deveria fazer natação, mas só se tivesse na borda, pais amorosos. É uma completude que transcende qualquer lógica. E saio sorridente, a cada nova aula. Me despeço deles assim: com mais um olhar de aprovação, por fazer parte desse universo líquido.
Sexta-feira, Maio 18
Ser professor é... lutar!
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| Mobilização JÁ! |
Isso mesmo, a carreira docente não é pauta específica e tão somente do Ministério da Educação. É no Ministério do Planejamento que reside o nosso gargalo.
Roberto Leher, professor da UFRJ, em palestra no ano passado em Maceió, analisou que talvez esse seja o elemento balizador para compreendermos como a universidade brasileira deixou de ter garantida a sua autonomia [por ora engessada] em virtude de ter suas decisões orçamentárias pensadas por sujeitos que não entendem nem pesquisam sobre educação superior, muito menos sobre as funções sociais da universidade e menos ainda sobre a importância de se respeitar e garantir as condições para que o tripé ensino-pesquisa-extensão seja efetivado plenamente.
São esses mesmos sujeitos, desprovidos dos saberes pedagógicos e/ou experiências educacionais edificantes, que elaboraram e propuseram propostas surreais como REUNI, PROUNI, FIES. São eles quem validam avaliações amplamente comprometidas como o ENADE, que sabemos: servem para ranquear as instituições e gerar ainda mais pânico entre estudantes e professores, quanto aos seus "desempenhos" mensuráveis.
Certo é que todas essas políticas neoliberais vem estimulando a precarização do trabalho docente. Aliás, há um ano e três meses como servidora federal, passei a ouvir demasiadamente palavras cheias de significado, como: precarização e sucateamento.
Então, pra repensar o que é justiça e decência, ou pra não adoecer junto com os que já se acomodaram, apoio esta greve, mesmo estando em estágio probatório, afinal, não há nada legalmente determinado que me intimidaria, felizmente.
Reivindicações centrais:
- reestruturação da carreira docente, prevista no Acordo 04/2011, descumprido pelo governo federal, com valorização do piso e incorporação das gratificações;
- melhoria das condições de trabalho docente.
- Até a presente data, 18 de maio, são 33 associações de docentes, vinculadas às IFES- Instituições Federais de Ensino Superior que já aderiram à greve. Confiram a lista aqui!
- Para saberem mais sobre a greve, por tempo indeterminado, visitem e divulguem este blog: Professores em Luta
Domingo, Maio 13
Menos, Tia Ju!
Ainda assim, não consigo ficar calada. Não durante muito tempo. Preciso sempre dar pitaco, dar conselho, orientar, reclamar, chamar a atenção e sempre exigir respeito.
Ser tia não é fácil. Tento segurar minha língua quando algo me incomoda. O problema é que quase tudo me incomoda na postura dos meus sobrinhos. E dos alunos, também, ora bolas! Sou professora sim, Tia não, em sala. E sou Tia Sim, Professora também, na família.
Faz tempo em que presenciei um diálogo com duas irmãs, sendo uma delas, minha sogra, naquela ocasião. Meu namorado já trabalhava desde os 17 anos e não estava muito interessado em cursar faculdade. Isso incomodava mãe, irmãos, tios e tias. E, claro, a pedagoga aqui.
Na conversa, a tia dizia o que pensava da situação. Eu, intrusa na família, apenas a ouvia, e concordava com seus argumentos. Ela, como eu, também não tinha filhos. E a irmã, aproveitou esse 'dado' importante para se defender.
- Cala a boca, você não tem filho!
Foi um silêncio doído. Eu não sabia se me retirava à francesa, ou se continuava fazendo cara de paisagem, tentando fixar o olhar para o chão, o quadro na parede ou apenas para as minhas mãos cruzadas e suadas.
A tia permaneceu em silêncio. A mãe, também. Eu então disse que faria de tudo para estimulá-lo a estudar novamente.
Não sei se por "nossa" influência, ele cursou Administração de Empresas e hoje administra as lojas da família, ao lado da sua mãe, mulher a quem admiro por sua fibra e coragem em educar três filhos sozinha.
Dessa história, nasceu o jargão entre mim e minhas manas. Sempre que conversamos sobre a educação dos seus filhos, elas me dizem "cala a boca, Ju, você não tem filho!". Eu retruco: "Tia Ju quer falar...".
E especialmente hoje, nessa data tão citada nas redes sociais, informes publicitários e por todo o comércio, eu gostaria, mais uma vez de não me calar.
São falas acumuladas, da experiência de ser Tia Ju, há quase 25 anos, desde que meu primeiro sobrinho nasceu.
Ser tia não é fácil. Tento segurar minha língua quando algo me incomoda. O problema é que quase tudo me incomoda na postura dos meus sobrinhos. E dos alunos, também, ora bolas! Sou professora sim, Tia não, em sala. E sou Tia Sim, Professora também, na família.
Faz tempo em que presenciei um diálogo com duas irmãs, sendo uma delas, minha sogra, naquela ocasião. Meu namorado já trabalhava desde os 17 anos e não estava muito interessado em cursar faculdade. Isso incomodava mãe, irmãos, tios e tias. E, claro, a pedagoga aqui.
Na conversa, a tia dizia o que pensava da situação. Eu, intrusa na família, apenas a ouvia, e concordava com seus argumentos. Ela, como eu, também não tinha filhos. E a irmã, aproveitou esse 'dado' importante para se defender.
- Cala a boca, você não tem filho!
Foi um silêncio doído. Eu não sabia se me retirava à francesa, ou se continuava fazendo cara de paisagem, tentando fixar o olhar para o chão, o quadro na parede ou apenas para as minhas mãos cruzadas e suadas.
A tia permaneceu em silêncio. A mãe, também. Eu então disse que faria de tudo para estimulá-lo a estudar novamente.
Não sei se por "nossa" influência, ele cursou Administração de Empresas e hoje administra as lojas da família, ao lado da sua mãe, mulher a quem admiro por sua fibra e coragem em educar três filhos sozinha.
Dessa história, nasceu o jargão entre mim e minhas manas. Sempre que conversamos sobre a educação dos seus filhos, elas me dizem "cala a boca, Ju, você não tem filho!". Eu retruco: "Tia Ju quer falar...".
E especialmente hoje, nessa data tão citada nas redes sociais, informes publicitários e por todo o comércio, eu gostaria, mais uma vez de não me calar.
São falas acumuladas, da experiência de ser Tia Ju, há quase 25 anos, desde que meu primeiro sobrinho nasceu.
- eu sei que não sou mãe e entendo que não sendo mãe, falar é muito mais fácil. Difícil é agir, considerando o contexto, o amor incondicional ou a sensação de impotência diante de um filho rebelde, enciumado, frustrado, triste. Ainda assim, penso que tenho obrigação de contribuir com meu olhar distanciado, de quem não pariu, mas percebe os jogos e as armadilhas que os pais acabam construindo, na tentativa de fazerem um caminho melhor para seus filhos.
- tendo o mesmo sangue correndo nas veias, me sinto mãe sim, muitas vezes, a cada momento em que percebo que um sobrinho meu está perdido, fazendo escolhas insensatas, no impulso.
- Tia Ju ama casa organizada e odeia bagunça. Faz parte da minha função de tia, e nem sei aonde isso está legislado, mas gosto de organizar as coisas e penso que sendo jovem ou não, todos precisam contribuir, porque somos um barco grande e se todos colaboram, não afundaremos, não é mesmo?
- meus manos e manas são sugestionáveis. Isso me dá espaço para eu me tornar mais espaçosa. Ou seja, me meter em tudo, e querer transformar tudo!
- eu amo cada um deles, daí a vontade de querer que cresçam e se tornem adultos admiráveis, autônomos, éticos, que aprendam e saibam cuidar e amar suas mães, seus pais, os tios, os primos, a nossa família.
Pronto. Falei neste dia emprestado, que já sei, não é meu.
Quinta-feira, Maio 10
Melhor desabafar
Me apeguei a uma realidade tão boa, que só queria viver pra ela. Não me serve mais a de antes. Nem tenho ânimo para desejar, por ora, uma terceira. Aquela é que faz sentido, faz falta, me fez feliz como eu jamais imaginaria ser, estando aqui, longe de casa.
Estou vivendo uma espécie de luto, provocado por mim mesma, com tudo o que tem direito: musiquinhas que confortam, diálogos necessários com amigos, muita reflexão cá comigo e meus botões acostumados às dores do peito.
Estou vivendo uma espécie de luto, provocado por mim mesma, com tudo o que tem direito: musiquinhas que confortam, diálogos necessários com amigos, muita reflexão cá comigo e meus botões acostumados às dores do peito.
As horas se arrastam, preguiçosas, sem nenhuma pressa. Não sinto motivos para avançar os minutos e chegar num final do dia desejando a noite, a madrugada, ou a manhã seguinte. É como se o meu prazer de viver estivesse congelado. Me sinto congelada, sem sangue correndo nas veias. Mas sei que corre e é quente, e que estou bem de saúde física.
Trabalho, me canso, durmo, amanheço, me alimento, tudo muito normalmente. Não há razão para pânico. Nem estou à beira de uma possível depressão. Meu estado melancólico pode ser considerado adequado à situação da perda, daquela amada rotina que me despedi.
Trabalho, me canso, durmo, amanheço, me alimento, tudo muito normalmente. Não há razão para pânico. Nem estou à beira de uma possível depressão. Meu estado melancólico pode ser considerado adequado à situação da perda, daquela amada rotina que me despedi.
Foram momentos muito intensos. Vivi uma paixão arrebentadora, sabe? E não teve fogo, nem faíscas. Não fiquei queimada. Nem me sinto assim. As chamas não foram ardentes. O sentimento, sim.
Se eu pudesse aquecer as cinzas, de algo que não morreu, haveria luz pra sempre em mim, em meu coração partido. Amaria que ele, em igual medida, se lembrasse da "nossa realidade", de nós dois, do que fomos um pro outro, em tão pouco [e maravilhoso] tempo.
Hoje é só de saudade que sou feita. Não consigo me lembrar de mais nada, que não seja a presença dele em minha rotina, em meus dias. E quando me olho, sinto a falta. É que meu olhar está perdido. E me sinto perdida, sem saber porquê continuar, no que acreditar ou desejar.
Me pergunto até se uma viagem me faria bem. Não tenho vontade de me afastar ainda mais dele. É bom imaginar que estamos a poucos quilômetros de distância, mesmo que isso não signifique que iremos nos reencontrar. É reconfortante saber que estamos "perto". Um perto-longe, infelizmente.
Me pergunto até se uma viagem me faria bem. Não tenho vontade de me afastar ainda mais dele. É bom imaginar que estamos a poucos quilômetros de distância, mesmo que isso não signifique que iremos nos reencontrar. É reconfortante saber que estamos "perto". Um perto-longe, infelizmente.
Por essas contradições e doideiras vividas, insisto em dizer que meu coração é terreno baldio, um território esquisito, alheio à lógica ou às minhas melhores decisões. Não ouso nem preciso checar os batimentos. E, insossa que só, ainda me ordeno que devo seguir assim, fazendo drama, sentindo essa ausência que me dói muito, me incomodando [até] com o nada.
Segunda-feira, Abril 30
Dos condicionantes
Ou dos condicionamentos. Ou das sujeições a que todos estamos sujeitos. Ser sujeito. Ser ímpar. Ser par. Ser casado. Ser solteiro. Ser estável. Ser sociável. Ser ou não ser. Sei que sou e estou. Sei que fui assim: menos sujeita a tantas imposições. Hoje estou assim: menos crédula, menos sugestionável. Queria um mundo sem rótulos. Queria pertencer a outras tribos. Sem definições sobre cor, estado civil ou credo. Sequer gostaria de saber o signo do outro ou o time que torce. São tantas condições, critérios, crivos. Queria ser mais tolerante. Acreditar mais no que o outro diz. Não atribuir juízos de valor. Nem valorar, nem marcar, nem excluir, nem eliminar, nem colocar contra a parede. Queria a liberdade. Ela vive em mim. Mas me marca, me exclui, me elimina, me sugestiona o que nem posso viver, mesmo querendo viver. E fico assim: contra a parede, presa a padrões, a modelos do que deve ser ou que pode ser. Será assim: um ir e vir de recomeços.
Sexta-feira, Abril 27
Nas Ondas do Rádio, parte 3
Tomara que consigam ouvir a entrevista que foi concedida à Rádio Jovem Pan AM 1020. Foi muito legal participar! Valeu Sandra Regina Paz, pela indicação.
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